Um espectro ronda o Brasil – o espectro do comunismo
- Rogério Mazzetto Franco
- 14 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
A ideologia comunista parte de uma premissa sedutora e, ao mesmo tempo, perigosa. A de que o Estado, quando colocado no centro da vida social, seria capaz de organizar a existência humana de forma mais justa, eficiente e igualitária. Nessa visão, o poder público não apenas regula, mas supre necessidades individuais e profissionais, coordena o trabalho, orienta a produção e redistribui os frutos da atividade econômica. O cidadão deixa de ser protagonista e passa a ser administrado.
Esse deslocamento de eixo não é meramente político. Trata-se de uma mudança profunda na compreensão do ser humano. O indivíduo já não é visto como agente moral capaz de decidir, errar, criar e prosperar, mas como alguém que necessita de tutela permanente. A liberdade, nesse contexto, torna-se condicionada. Existe apenas enquanto não contraria o projeto central estabelecido pelo Estado.
Hannah Arendt observou que sistemas dessa natureza não se sustentam apenas pelo controle visível, mas pela normalização da dependência. Quando o Estado assume o papel de provedor universal, ele não apenas distribui recursos, mas define prioridades, comportamentos e limites. A vida econômica e social passa a girar em torno do acesso ao dinheiro estatal. O trabalho deixa de ser expressão de autonomia e passa a ser um meio de inserção no sistema de distribuição.
No campo econômico, os efeitos tornam-se inevitáveis. Empresas e setores produtivos, ao invés de responderem às demandas reais da sociedade, passam a responder às diretrizes do poder central. Subsídios, financiamentos públicos e contratos governamentais substituem a concorrência, a inovação e o mérito. Grandes conglomerados tornam-se dependentes do Estado, e pequenos empreendedores desaparecem, incapazes de sobreviver em um ambiente onde o sucesso está ligado à proximidade política e não à eficiência.
Friedrich Hayek demonstrou que nenhuma autoridade central é capaz de reunir o conhecimento disperso na sociedade. A tentativa de planejar a economia como um todo gera distorções constantes. Cada falha produz mais intervenção. Cada intervenção exige mais recursos. O resultado é um sistema pesado, lento e cada vez mais caro de manter.
O problema, porém, não é apenas técnico. É moral. Quando o Estado substitui a responsabilidade individual, ele enfraquece o caráter social. O cidadão passa a esperar do poder público aquilo que antes construía por meio do trabalho, da cooperação e da iniciativa. Alexis de Tocqueville descreveu esse fenômeno como um despotismo suave, no qual as pessoas não são violentamente oprimidas, mas gradualmente conduzidas à passividade.
A promessa de igualdade, tão presente no discurso comunista, esbarra em sua própria contradição. Ao tentar nivelar todos, o sistema elimina diferenças legítimas de talento, vocação e esforço. Isaiah Berlin advertia que a busca por uma igualdade absoluta frequentemente exige a supressão da liberdade. O que se obtém não é justiça social, mas uniformidade forçada.
A história confirma esse diagnóstico. Estados comunistas, ao longo do século XX, enfrentaram o mesmo desfecho. Economias estagnadas, escassez crônica, perda de produtividade e colapso fiscal. A União Soviética não caiu por falta de controle, mas por excesso dele. O Estado tentou sustentar tudo e todos, até que os recursos simplesmente não foram mais suficientes. O dinheiro acabou porque a produção real foi desestimulada, e a inovação, sufocada.
Não existe Estado capaz de gerar riqueza por decreto. O Estado apenas redistribui aquilo que a sociedade produz. Quando ele assume o papel de produtor universal, o sistema entra em falência progressiva. Menos produção gera menos arrecadação. Menos arrecadação exige mais endividamento. Mais endividamento leva à inflação, ao colapso monetário ou à repressão econômica.
Roger Scruton lembrava que sociedades livres se sustentam sobre instituições intermediárias fortes. Família, mercado, associações civis e tradição. Quando o Estado ocupa esses espaços, ele não os fortalece. Ele os substitui, e ao substituí-los, os enfraquece até a dissolução.
Projetar esse modelo para o Brasil não exige esforço imaginativo exagerado. Um país com alta carga tributária, demandas sociais amplas, estrutura burocrática pesada e crescimento econômico limitado não suportaria uma expansão ainda maior do controle estatal. A tentativa de atender simultaneamente todas as demandas sociais, empresariais e políticas levaria a um aumento contínuo de impostos, endividamento público e perda de competitividade.
Empresas deixariam de investir. Capital produtivo migraria. O setor informal cresceria. O Estado, pressionado, teria de escolher entre cortar benefícios, aumentar impostos ou imprimir dinheiro. Qualquer uma dessas opções conduziria a um empobrecimento generalizado. Não apenas por impossibilidade matemática, mas também por maldade ideológica.
A lição é clara. O Estado é necessário, mas não é absoluto. Quando se transforma no centro da vida social, ele perde sua função original e passa a corroer aquilo que deveria proteger. A liberdade econômica, a responsabilidade individual e a criatividade humana não são obstáculos à justiça social. São seus pré-requisitos.
Toda sociedade que ignora esse princípio acaba descobrindo, tarde demais, que nenhum governo é capaz de sustentar uma nação inteira sem que, em algum momento, a conta chegue. E quando chega, não há ideologia que a pague.




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