O 8 de Janeiro: Manifestação, Depredação e o Golpe Branco do STF
- Rogério Mazzetto Franco
- 12 de ago. de 2025
- 2 min de leitura
Atualizado: 17 de fev.
O episódio de 8 de janeiro de 2023 entrou para a história brasileira sob a etiqueta apressada de tentativa de golpe de Estado. Essa classificação se espalhou como dogma oficial, repetida sem exame e protegida por censura moral. Os fatos revelam outra realidade. O que ocorreu em Brasília foi um levante desorganizado, emocional e politicamente inepto, incapaz de produzir qualquer ruptura real do poder constituído.
Golpes de Estado obedecem a uma lógica conhecida. Exigem comando central, coordenação operacional, controle das forças armadas, domínio dos centros decisórios e capacidade imediata de substituição do poder. Nada disso existiu naquele dia. Não havia cadeia de comando, não havia plano, não havia liderança, não havia respaldo militar. O governo já estava formalmente empossado. Jair Bolsonaro encontrava-se fora do país, sem cargo, sem autoridade institucional e sem qualquer influência sobre forças de segurança ou estruturas do Estado.
O que se viu foi uma massa de manifestantes que perdeu o controle e caiu em atos de depredação. Vandalismo constitui crime. Vandalismo não constitui golpe. A equiparação deliberada entre uma coisa e outra serve apenas à construção de uma narrativa de exceção. A história política demonstra que ações desordenadas dessa natureza jamais derrubaram governos. Servem como combustível para algo muito mais eficaz.
Há indícios graves de omissão deliberada do aparato de segurança. A atuação do Gabinete de Segurança Institucional foi marcada por permissividade, falhas operacionais e ausência de contenção mínima. A responsabilidade política recai sobre o então ministro Flávio Dino. A desorganização não foi mero erro administrativo. O cenário favoreceu infiltrações e a amplificação do caos. O resultado foi previsível e funcional para interesses que já aguardavam um pretexto.
Esse pretexto foi imediatamente explorado. A partir do 8 de janeiro consolidou-se um movimento de endurecimento institucional conduzido pelo Supremo Tribunal Federal. Prisões em massa, censura preventiva, perseguição política e relativização de garantias fundamentais passaram a ser tratadas como medidas normais. O discurso da defesa da democracia tornou-se instrumento de repressão. A exceção passou a operar sob aparência de legalidade.
Esse mecanismo segue um padrão histórico conhecido. Manifestações reais ou manipuladas são utilizadas como gatilho para a concentração de poder jurídico. O golpe não se dá pela força armada. O golpe se dá pelo direito distorcido, pela caneta, pela intimidação institucional e pelo silenciamento seletivo. A democracia permanece apenas como fachada retórica.
A escritora russa Elena Gorokhova descreveu com precisão esse ambiente de falsidade pública em seu livro A Mountain of Crumbs. Nós sabemos que eles estão mentindo, eles sabem que estão mentindo, eles sabem que sabemos que eles estão mentindo, sabemos que eles sabem que sabemos que eles estão mentindo, mas eles continuam mentindo.
Essa lógica opera hoje no Brasil. O regime sustenta sua autoridade por meio da mentira institucionalizada. O Judiciário legitima medidas excepcionais por meio de ficções jurídicas. A grande imprensa reproduz a narrativa oficial como catecismo. O alerta ultrapassou as fronteiras nacionais. O The Washington Post expôs o colapso institucional brasileiro e o avanço de práticas incompatíveis com uma democracia saudável.
O 8 de janeiro não foi um golpe. Foi a justificativa. O verdadeiro assalto ao Estado ocorre de forma silenciosa, contínua e juridicamente embalada. A vigilância se impõe como dever moral. A crítica se impõe como obrigação cívica. A liberdade não sobrevive onde a mentira se converte em política de Estado.




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