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O problema do Brasil é o brasileiro

  • Foto do escritor: Rogério Mazzetto Franco
    Rogério Mazzetto Franco
  • 1 de jul. de 2025
  • 2 min de leitura

Atualizado: 9 de fev.

O problema do Brasil não está no Planalto. Está na alma coletiva de quem aponta o dedo para o Planalto fingindo inocência.


Durante décadas, o brasileiro cultivou uma superstição confortável. A ideia de que a política é um mundo à parte, um pântano isolado habitado por criaturas moralmente inferiores que nada têm a ver conosco. Essa fantasia serve apenas para uma coisa. Absolver o culpado antes mesmo do julgamento. O culpado somos nós.


Político nenhum brota do chão como erva daninha. Ele é produzido. Moldado. Educado. Ele nasce do mesmo ambiente em que você nasceu. Aprende os mesmos vícios, absorve as mesmas desculpas, repete as mesmas racionalizações morais que todo mundo repete para dormir tranquilo à noite. Antes de ser deputado, ele foi o aluno que colava, o funcionário que matava horário, o cidadão que burlava regra e ainda se achava esperto por isso.


A corrupção que hoje se lamenta com ar solene não começou em Brasília. Começou na pequena fraude justificada como necessidade. No atalho tratado como inteligência. No erro relativizado porque todo mundo faz. O grande ladrão é apenas o pequeno desonesto que encontrou escala, método e proteção legal.


O Brasil é um país onde a honestidade foi rebaixada à condição de defeito de caráter. O sujeito correto é visto como ingênuo. O trapaceiro é tratado como alguém desenrolado. O jeitinho não é uma exceção moral. É uma filosofia de vida. E toda filosofia produz consequências.


Não se pode esperar grandeza política de uma cultura que premia a malandragem e ridiculariza a retidão. O eleitor que negocia o próprio voto por conveniência imediata não tem o direito moral de se escandalizar quando o eleito negocia o país inteiro com a mesma lógica.


O brasileiro não é vítima do sistema. Isso é autoengano sentimental. Ele é cúmplice. Reclama da corrupção desde que ela não beneficie um parente, um amigo ou a si mesmo. Defende princípios em abstrato e os trai na prática com naturalidade assustadora. A distância entre o discurso público e a vida privada é tão grande que virou um abismo moral. É ali que a nação se dissolve.


Perdeu-se o senso de vergonha. Tudo passou a ser negociável. A verdade, a lei, a palavra dada. Não por reflexão intelectual profunda, mas por oportunismo. O relativismo virou desculpa para não assumir responsabilidade por nada. Quando tudo é relativo, ninguém é culpado.


No cotidiano, a desonestidade foi banalizada. Pequenas infrações são tratadas como irrelevantes. Pequenas mentiras como estratégias. Pequenos furtos como esperteza. O problema é que a soma das pequenas corrupções forma o caráter de uma sociedade. E o caráter coletivo determina o tipo de poder que ela produz.


A mudança não virá de cima. Nunca veio. Nunca virá. Não existe reforma política capaz de compensar uma falência moral generalizada. Não se constrói um Estado sério sobre uma população que trata a própria consciência como item descartável.

A verdadeira transformação começa quando o indivíduo comum se recusa a participar da mentira coletiva. Quando para de aplaudir o desonesto. Quando passa a exigir de si mesmo o que diz exigir dos outros. Sem isso, todo protesto é teatro. Toda indignação é farsa.


Enquanto o brasileiro não mudar, o país não muda. E continuará elegendo, com espantosa precisão, exatamente o retrato moral que se recusa a reconhecer no espelho.



 
 
 

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