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COM O MAL NÃO SE NEGOCIA

Foto do escritor: Rogério Mazzetto Franco
Rogério Mazzetto Franco
há 3 horas
8 min de leitura

Atualizado: há 3 horas

O Acordo de Munique e a voz solitária de Churchill

שִׁוִּיתִי יְהוָה לְנֶגְדִּי תָּמִיד


"Não se pode negociar com um tigre quando sua cabeça está na boca dele." Winston Churchill


Na tarde de 30 de setembro de 1938, o primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain desceu do avião no aeródromo de Heston, nos arredores de Londres, com uma folha de papel na mão. Fez questão de mostrá-la aos fotógrafos antes mesmo de falar. Eram poucas linhas, assinadas por ele e por Adolf Hitler naquela manhã, em Munique, em que os dois declaravam o desejo de que seus povos nunca mais fossem à guerra um contra o outro. À noite, de uma janela de Downing Street, Chamberlain disse à multidão que trazia de volta a paz com honra e que acreditava ser aquela "a paz para o nosso tempo". Poucos políticos ingleses foram tão aplaudidos quanto ele naquele fim de semana. Onze meses depois, a Europa estava em guerra.


Quase todo mundo conhece essa cena, ao menos pela fotografia, e sabe como a história terminou. O que ainda vale a pena entender é outra coisa. Como homens experientes, bem informados, com relatórios de inteligência sobre a mesa e cinco anos de exemplos diante dos olhos, conseguiram se convencer de que Hitler cumpriria o que assinava? E por que um deputado sem cargo, desacreditado pelo próprio partido, enxergou com tanta clareza aquilo que eles se recusavam a ver?


A resposta começa pelo histórico do homem com quem Chamberlain foi negociar. Em janeiro de 1934, um ano depois de chegar ao poder, Hitler assinou um pacto de não agressão com a Polônia, que ele próprio rasgaria em 1939. Em maio de 1935, num discurso ao Reichstag, garantiu que a Alemanha não tinha a menor intenção de anexar a Áustria e que respeitaria os Tratados de Locarno, que mantinham a Renânia desmilitarizada. Dez meses depois, as tropas alemãs entraram na Renânia. Em julho de 1936, Berlim firmou com Viena um acordo reconhecendo a soberania austríaca. Em março de 1938, a Áustria foi ocupada num fim de semana e deixou de existir. Cada uma dessas rupturas veio embalada num discurso tranquilizador, sempre com a mesma mensagem: aquela era a última reivindicação, a Alemanha só queria corrigir as injustiças do Tratado de Versalhes, ninguém precisava se preocupar.


O alvo seguinte era a Tchecoslováquia, país criado em 1918 e a única democracia que sobrevivia na Europa Central. Nas montanhas da fronteira com a Alemanha, a região chamada de Sudetos, viviam cerca de três milhões de pessoas de língua alemã. Ali também ficavam as fortificações que protegiam o país e boa parte da sua indústria. O partido nazista local, liderado por Konrad Henlein, dizia lutar por autonomia, mas recebia de Berlim a orientação de exigir sempre mais do que o governo de Praga pudesse conceder, para que nenhum acordo fosse possível. A minoria supostamente oprimida era o pretexto. Em maio de 1938, Hitler deixou registrado numa diretiva aos seus generais o que pretendia de fato: destruir a Tchecoslováquia pela força militar, num futuro próximo.


É preciso ser justo com Chamberlain para entender o tamanho do seu erro. Ele não era um tolo nem um simpatizante do nazismo. Tinha perdido um primo querido na Primeira Guerra, como quase toda família inglesa perdera alguém, e governava um país que ainda contava os seus mortos. Temia, com razão, os bombardeios sobre Londres. Era um administrador competente, acostumado a resolver problemas sentando com as pessoas e chegando a um meio-termo, e acreditava sinceramente que Hitler, atendido em suas queixas, acabaria se acomodando. O problema é que ele aplicou a um ditador a lógica de quem negocia com um adversário político em Westminster. E para continuar acreditando nisso, precisou ignorar tudo o que contrariava a sua tese.


Não faltou quem o ajudasse a ignorar. O secretário do Exterior, Lord Halifax, tinha visitado Hitler em 1937 e voltado com a impressão de que os nazistas eram, antes de tudo, uma barreira útil contra o comunismo. O embaixador em Berlim, Sir Nevile Henderson, mandava a Londres telegramas garantindo que Hitler era um homem com quem se podia conversar. O jornal The Times, o mais influente do país, chegou a sugerir num editorial de setembro que os tchecos talvez saíssem ganhando se entregassem os Sudetos. Chamberlain desconfiava dos diplomatas de carreira, que achava alarmistas, e preferia ouvir Sir Horace Wilson, um funcionário público sem nenhuma experiência em política externa. Formou-se em volta dele uma espécie de bolha, onde as más notícias chegavam abafadas.


Em pouco mais de duas semanas, Chamberlain foi três vezes ao encontro de Hitler. Na primeira, em 15 de setembro, aos 69 anos, embarcou num avião pela primeira vez na vida e voou até Berchtesgaden, o refúgio de Hitler nos Alpes. Ouviu a exigência de que os Sudetos fossem entregues à Alemanha e voltou disposto a aceitá-la. Numa carta à irmã, escreveu que, apesar da dureza que tinha visto no rosto do ditador, saíra de lá com a impressão de estar diante de um homem em cuja palavra se podia confiar. Nos dias seguintes, Londres e Paris pressionaram o presidente tcheco, Edvard Beneš, a ceder, avisando que, se recusasse, ficaria sozinho.


Na segunda viagem, em 22 de setembro, Chamberlain chegou a Bad Godesberg levando exatamente o que Hitler tinha pedido. Hitler respondeu que aquilo já não servia. Agora queria ocupar a região militarmente, em questão de dias, sem esperar comissões nem plebiscitos. Qualquer pessoa atenta teria entendido ali como aquele homem negociava: cada concessão recebida virava o ponto de partida da exigência seguinte. Por alguns dias, a guerra pareceu inevitável. A Marinha britânica foi mobilizada, cavaram-se trincheiras nos parques de Londres, distribuíram-se máscaras de gás à população. Em 26 de setembro, num discurso inflamado em Berlim, Hitler afirmou que os Sudetos eram a sua última reivindicação territorial na Europa e que a Alemanha não queria saber de tchecos. Na noite seguinte, Chamberlain falou ao país pelo rádio e deixou escapar a frase que o perseguiria para sempre: achava terrível que os ingleses estivessem cavando trincheiras e experimentando máscaras de gás por causa de uma briga num país distante, entre gente de quem nada sabiam.


A terceira viagem foi a de Munique. Mussolini propôs uma conferência, Hitler aceitou, e em 29 de setembro Chamberlain e o primeiro-ministro francês, Édouard Daladier, sentaram-se com os dois ditadores para decidir o destino de um país que não tinha sido convidado. A União Soviética, que tinha um tratado de defesa com Praga, também ficou de fora. Os diplomatas tchecos passaram o dia esperando num hotel da cidade. Pouco depois da uma da manhã, o acordo foi assinado: a Alemanha ocuparia os Sudetos entre 1 e 10 de outubro. Só então os tchecos foram chamados para ouvir a decisão, sem direito a recurso. A Tchecoslováquia perdia suas defesas naturais, suas fortificações e boa parte das suas fábricas, sem que um único tiro tivesse sido disparado.


Na manhã seguinte, Chamberlain pediu para ver Hitler a sós e lhe apresentou a tal declaração de amizade anglo-alemã. Hitler a assinou quase sem ler. Mais tarde, comentaria com os seus que aquele papel não tinha importância nenhuma. Para Chamberlain, era a prova de que a confiança pessoal tinha vencido. Para Hitler, era mais uma assinatura, como tantas outras que ele já tinha dado e descumprido.


Enquanto Londres comemorava, havia na Câmara dos Comuns um homem de 63 anos que não comemorava nada. Winston Churchill estava fora do governo desde 1929. O Partido Conservador o considerava um aventureiro briguento e ultrapassado, e muitos deputados saíam do plenário quando ele se levantava para falar da Alemanha. Mas Churchill falava com base em fatos. Desde 1933, funcionários preocupados com o rumo das coisas lhe passavam, discretamente, números sobre o rearmamento alemão. Em 1934 ele avisou que a força aérea de Hitler logo alcançaria a britânica. O governo desmentiu e, meses depois, teve de admitir que ele estava certo. Churchill também tinha lido o que Hitler escrevera e acompanhava o que o regime fazia dentro de casa, com os opositores e com os judeus. Para ele, um governo que tratava assim o próprio povo não ia tratar melhor os vizinhos.


Depois da anexação da Áustria, ele propôs que a Grã-Bretanha, a França e os países ameaçados formassem uma grande aliança, se preciso com a União Soviética, para deixar claro a Hitler que o passo seguinte lhe custaria uma guerra. Chamberlain descartou a ideia. Em agosto, numa carta ao ex-primeiro-ministro Lloyd George, Churchill escreveu que a Inglaterra teria de escolher entre a guerra e a vergonha, e que temia vê-la escolher a vergonha para depois ter a guerra do mesmo jeito. Foi exatamente o que aconteceu.


No dia 5 de outubro, terceiro dia do debate sobre Munique, Churchill falou durante cerca de 45 minutos para uma Câmara hostil. Começou dizendo aquilo que todos preferiam esquecer: que a Grã-Bretanha tinha sofrido uma derrota total e absoluta, e a França uma ainda maior. A deputada Nancy Astor o interrompeu aos gritos de "bobagem". Ele seguiu. Comparou as três rodadas de negociação a um assalto em que o ladrão exige uma libra sob a mira de uma pistola, depois duas, e por fim aceita levar um pouco menos para dar ao roubo a aparência de um acordo. Previu que o que restava da Tchecoslováquia seria engolido em pouco tempo. Disse que jamais poderia haver amizade entre a democracia britânica e um poder que desprezava a ética cristã, celebrava a agressão e usava a ameaça de violência como método. E terminou avisando que Munique não era o fim de nada, apenas o começo do acerto de contas.


Não estava completamente sozinho, e é justo lembrar os que ficaram ao seu lado. Duff Cooper, ministro da Marinha, renunciou ao cargo em protesto, coisa raríssima num governo conservador daquela época. Anthony Eden, que já tinha deixado o Ministério do Exterior meses antes por discordar de Chamberlain, juntou-se aos dissidentes. Na votação, o governo venceu por 366 votos a 144, e Churchill, com cerca de trinta conservadores, recusou-se a apoiá-lo. A punição veio rápido: na sua própria base eleitoral, houve quem tentasse tirar dele a candidatura. Ter razão sobre Hitler, naquele outono, era uma forma de suicídio político.


A história não demorou a mostrar quem estava certo. Em 15 de março de 1939, menos de seis meses depois de Munique, as tropas alemãs entraram em Praga. Hitler, que tinha jurado não querer saber de tchecos, passou a noite no castelo da cidade e transformou o país num protetorado do Reich. Desta vez não havia minoria alemã a proteger nem fronteira a corrigir. Era conquista, pura e simples. Em abril, ele denunciou o pacto com a Polônia assinado cinco anos antes. Em agosto, reunido com os seus comandantes, disse que os inimigos eram uns vermes e que os tinha visto de perto em Munique. Dias depois, firmou com Stalin o pacto germano-soviético. Em 1º de setembro, invadiu a Polônia, e no dia 3 a Grã-Bretanha entrou na guerra que Munique deveria ter evitado, agora sem as divisões tchecas ao seu lado e diante de uma Alemanha muito mais forte. No mesmo dia, Churchill foi chamado de volta ao governo. Em maio de 1940, assumiu como primeiro-ministro.


Há um detalhe que completa o retrato. Em junho de 1941, Hitler traiu também Stalin, o único parceiro que o ajudara a começar a guerra, e invadiu a União Soviética. Nem os aliados escapavam. Quem acreditou na palavra dele, fosse um conservador inglês ou um ditador comunista, acabou pagando o preço.


Os defensores de Chamberlain costumam lembrar que a Grã-Bretanha não estava pronta para lutar em 1938 e que Munique comprou um ano de rearmamento. Pode ser. Mas a Alemanha usou esse mesmo ano com proveito maior, e o erro de Chamberlain foi de outra natureza. Ele não cedeu como quem ganha tempo diante de um inimigo. Cedeu como quem fecha negócio com um parceiro, e voltou para casa anunciando uma paz que só existia na cabeça dele.


A folha de papel que ele mostrou em Heston valia exatamente o que Hitler quisesse que valesse, e Hitler já tinha decidido que não valia nada. Essa talvez seja a lição mais dura de Munique. Um regime que chega ao poder pela força e trata a mentira como instrumento de governo não muda de natureza quando se senta à mesa de negociação. Pode sorrir e assinar, pode até parecer razoável por uma tarde, como pareceu a Chamberlain em Berchtesgaden. Mas cada acordo que firma é só uma etapa do mesmo plano, e cada concessão que recebe soa para ele como um convite a pedir mais. Churchill entendeu isso porque julgava Hitler pelo que ele fazia, e não pelo que dizia. Os outros preferiram acreditar nas palavras, porque olhar para os fatos exigiria deles uma coragem que, naquele momento, não tiveram.



 
 
 

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