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NÃO EXISTE ESQUERDISTA MODERADO

Foto do escritor: Rogério Mazzetto Franco
Rogério Mazzetto Franco
há 4 minutos
4 min de leitura

שִׁוִּיתִי יְהוָה לְנֶגְדִּי תָּמִיד

No dia 8 de outubro, Ana Elisa resolveu falar com os eleitores de direita. Ela tem 21 anos, foi eleita deputada federal pelo PT de Minas e agora cuida da comunicação digital da campanha de Lula. O recado dela foi este: se Flávio Bolsonaro ganhar, “muito provavelmente nós viveremos um regime ditatorial bolsonarista por mais de 30 anos”. Trinta anos. No mesmo dia, ela reconheceu que o ideal seria discutir programa de governo e, logo em seguida, explicou que a campanha vai fazer outra coisa, vai expor o adversário. Para quem achasse isso feio, ela tinha a frase pronta: “Não é atacar a pessoa, é mostrar quem é”.


O Globo publicou postagens antigas atribuídas a ela com frases como “odeio branco” e “tô nem aí para empreendedor”, soltas entre risadas e palavrões, como quem conta piada no bar.

Tem gente que vai dizer que é coisa de menina, que ela ainda vai amadurecer. Eu discordo. Ana Elisa só disse sem filtro o que a esquerda brasileira pensa há muito tempo, e ela não é um ponto fora da curva. É o retrato mais nítido que o PT nos deu nos últimos anos.


Ela também não inventou nada. Em 2013, com Lula sentado ali perto, Marilena Chaui gritou num evento do partido: “Eu odeio a classe média!”. A plateia aplaudiu. Dois anos depois, o professor Mauro Iasi, num encontro de militantes, falou em oferecer à direita “um bom paredão”, com espingarda, bala, pá e cova, e fechou com a frase: “Com a direita e o conservadorismo nenhum diálogo, luta!”. Depois veio a desculpa de que era um poema de Brecht. Pode até ser. Mas quem escolhe recitar fuzilamento de adversário para uma sala cheia de militantes sabe muito bem o recado que está dando. Ninguém sobe ao palco para ler Brecht por acaso.


O que liga Chaui, Iasi e Ana Elisa é uma forma de enxergar a política como guerra santa. Do lado deles estão os bons. Do outro não existe cidadão que pensa diferente, existe ameaça, e ameaça a gente neutraliza: desmoraliza, cala, expulsa da conversa. Por isso eles não sabem perder um debate. Nunca acharam que estavam num.


O medo é a arma de sempre. Para eles, toda eleição é a última antes do fim do mundo. Ninguém pede prova da tal ditadura de trinta anos, e ela não vem. Também não precisa vir, porque eleitor assustado não pensa direito, e é exatamente isso que se quer.


A verdade vale enquanto serve. Ana Elisa admitiu na frente das câmeras que o debate de ideias seria o certo e, na mesma resposta, disse por que não vai fazer isso. Ninguém no partido ficou constrangido. Se o argumento não ganha voto, troca-se o argumento por assassinato de reputação e chama-se isso de transparência.


Daí a régua dupla, que todo mundo já conhece. Dentro de casa, tudo se perdoa. Quando o companheiro parte para a truculência, eles chamam de resistência. Censura que ajuda a causa vira, para eles, defesa da democracia. E todo escândalo do partido acaba na mesma explicação, perseguição. O mensalão condenou a cúpula do PT. O petrolão teve confissão, delação e bilhões devolvidos aos cofres públicos. O militante olhou para tudo isso e viu “lawfare”. Para ele, tribunal nenhum tem autoridade moral sobre o partido.


Fazem passeata por Gaza e não conseguem condenar o Hamas sem pendurar um “mas” no fim da frase. O 7 de outubro, com bebês assassinados e reféns arrastados para túneis, vira “contexto”. O antissemitismo que aparece nos próprios atos passa sem comentário. Direitos humanos, para essa turma, dependem de quem está segurando a arma.


Na economia, mede-se a bondade pelo tamanho do gasto. Ninguém fala do custo da máquina, da ineficiência ou dos acordos que mantêm a base de pé. A discussão é sempre sobre quanto mais dá para gastar, pois dizem que a burguesia tem dinheiro para financiar. Esquecem quem paga a conta é o pobre, no imposto escondido no arroz e no gás, na fila do posto e na escola que não ensina o filho dele a ler direito. O lulismo vive dessa carência, e cada brasileiro que deixa de depender do governo é um voto a menos.


O plano também não acaba na urna. Ocupar a escola, a universidade, a cultura paga com dinheiro público, as redações e a máquina do Estado faz parte do projeto há décadas, e eles nunca esconderam isso. O resultado está aí. A escola forma militante e a universidade cobra conformidade. O Estado, que deveria servir a todo mundo, virou patrimônio de facção.


Por baixo de tudo existe um desprezo enorme pelo povo de verdade. A esquerda diz que ama o povo, mas ama um povo imaginário que vota nela. O brasileiro real, que vai à missa ou ao culto, defende a família, quer polícia na rua e prefere trabalhar a viver de auxílio, é tratado como atrasado, enganado ou fascista. Quando obedece, ganha aplauso. Quando desobedece, precisa ser reeducado. Ana Elisa foi mais longe e disse que a derrota de Flávio é necessária para que surjam novas lideranças conservadoras no país. Agora eles querem escolher até quem vai liderar a oposição.


E o moderado? É aqui que ele deveria aparecer, e é justamente aqui que some. Quando o radical abre a boca e mostra o que pensa, o moderado fica quieto. Ficou quieto quando a colega de partido anunciou trinta anos de ditadura para dois milhões de seguidores. Também não se ouviu nada dele quando a campanha trocou o debate pela desumanização de pessoas, nem quando o militante decidiu que quem discorda tem que ser calado. Tratar quem pensa diferente como inimigo a ser destruído é violência, e essa violência é o método. O moderado conhece esse método, convive com ele e, no fim, vota com ele. O silêncio dele é o jeito de aprovar sem sujar as mãos.


Por isso eu digo que não existe esquerdista moderado. Existe o radical que fala e o companheiro que concorda calado. A estrategista da campanha de Lula avisou, em público e sem nenhum constrangimento, que o país não será o assunto deste segundo turno e que o assunto será destruir quem está do outro lado. Até agora não vi um único moderado vir a público dizer que discorda.



 
 
 

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