top of page
Buscar

Brasil, o país do futuro que nunca chegou

  • Foto do escritor: Rogério Mazzetto Franco
    Rogério Mazzetto Franco
  • há 9 minutos
  • 4 min de leitura

O Brasil passou a ser conhecido como país do futuro a partir de Stefan Zweig, intelectual austríaco que se exilou aqui durante a Segunda Guerra Mundial. Zweig encontrou um país sem guerras internas recentes, socialmente estável, com enorme abundância natural e uma população miscigenada que parecia conviver sem rupturas profundas. Aquilo que ele percebeu como promessa acabou virando rótulo. O livro Brasil, país do futuro cravou a expressão no imaginário mundial, e a elite brasileira a adotou como uma espécie de certificado histórico. A promessa virou identidade. O presente perdeu peso moral e político.


O problema é que esse futuro nunca chegou. E não chegou porque o Brasil jamais produziu estadistas capazes de pensar o país cinquenta ou cem anos à frente. Nunca houve líderes realmente comprometidos com a construção de instituições sólidas, com uma educação formadora de caráter ou com a formação de uma elite moral capaz de guiar a nação. O que existiu foi uma sequência de presidentes, governadores, parlamentares, ministros e burocratas agindo sempre de olho no imediato, no interesse pessoal, no cálculo partidário.


Getúlio Vargas deu forma a esse modelo. Centralizou o Estado, criou dependência e ensinou o brasileiro a esperar direitos sem assumir deveres. Sindicatos, estatais e a legislação trabalhista nasceram menos como instrumentos de emancipação e mais como mecanismos de controle político e social. O Estado passou a ocupar o lugar de tutor permanente da população.


Juscelino Kubitschek acelerou esse caminho. Apostou em um desenvolvimentismo de vitrine, prometeu cinquenta anos de progresso em cinco e financiou crescimento rápido com endividamento externo. Brasília surgiu como símbolo de futuro, mas por trás da imagem os alicerces morais, fiscais e institucionais continuavam frágeis.


O regime militar ampliou o Estado e investiu pesado em crescimento econômico e infraestrutura. Mas abandonou educação e cultura. Não formou cidadãos críticos, não estruturou uma elite intelectual consistente e deixou universidades e centros culturais sem orientação ética clara. O resultado foi previsível. Um Estado grande e uma sociedade frágil, intelectualmente desarmada e pronta para ser ocupada ideologicamente.


Fernando Henrique Cardoso consolidou esse processo no plano cultural. Universidades, imprensa e produção intelectual passaram a operar alinhadas a uma narrativa tecnocrática que se apresentava como neutra, mas funcionava politicamente. Financiamentos, cargos de reitoria e bolsas de pesquisa foram direcionados a grupos que reproduziam o pensamento dominante. Vozes críticas perderam espaço, prestígio e acesso. Currículos, programas de pós-graduação e linhas de pesquisa receberam direcionamento ideológico sutil, porém constante, compatível com a visão progressista e com os interesses do poder vigente.


A imprensa seguiu o mesmo padrão. O acesso privilegiado a entrevistas, verbas publicitárias e relações institucionais funcionou como mecanismo de conformação. Veículos críticos enfrentaram dificuldade para obter fontes e visibilidade. Os alinhados foram promovidos como referência. O debate público passou a circular por filtros. A pluralidade intelectual encolheu. Ideias divergentes começaram a ser tratadas como atraso, excentricidade ou ameaça. A uniformidade de pensamento se consolidou.


Lula aprofundou essa lógica ao transformar o Estado em máquina de dependência social e fidelização política. Programas assistenciais foram ampliados sem qualquer esforço real de emancipação, sempre acompanhados da narrativa de que o futuro estava logo ali.


Dilma Rousseff levou esse modelo ao limite. Insistiu em políticas econômicas que ampliaram o déficit público e a dívida sem gerar crescimento sustentável. Subordinou a política fiscal e monetária a interesses eleitorais imediatos, corroendo a autonomia técnica. Programas sociais e obras públicas foram usados como instrumentos políticos. Produção e educação ficaram em segundo plano.


A interferência se espalhou por estatais, ministérios e órgãos de controle. Aliados ocuparam cargos estratégicos. Instituições perderam função técnica e passaram a operar como extensões do poder. A Petrobras se tornou símbolo desse processo, usada como plataforma de corrupção sistêmica e favorecimento político, com impacto direto na economia e na credibilidade do país. Subsídios, desonerações e incentivos concedidos sem critério técnico agravaram desequilíbrios fiscais e concentraram recursos em grupos próximos ao governo.


No plano institucional, Dilma não fortaleceu pesos e contrapesos. Conviveu com alianças instáveis e tolerou práticas que corroeram transparência e responsabilidade. O resultado foi a consolidação de um modelo baseado em dependência, clientelismo e fragilidade institucional, sempre embalado pelo mito do país do futuro.


Esse mito foi cultivado por intelectuais orgânicos inspirados em Antonio Gramsci e Paulo Freire. Universidades, redações, editoras e sistemas educacionais passaram a operar como aparelhos de formação ideológica. O rigor intelectual foi substituído por adesão automática. A tradição ocidental foi atacada. A herança cristã relativizada. A família deslegitimada. A sociedade perdeu coesão moral.


A mídia teve papel decisivo nesse processo. Grandes redações suavizaram falhas do Estado, minimizaram corrupção e rotularam crítica como atraso moral ou autoritarismo. A opinião pública foi domesticada. O brasileiro foi treinado a esperar promessas, não a cobrar resultados.


O futuro não chegou porque nunca foi construído. A promessa ocupou o lugar da ação. A retórica substituiu a disciplina. Sem base moral, sem educação formadora de caráter e sem elite dirigente responsável, a ideia de prosperidade virou ilusão recorrente.

No terceiro governo Lula, esse modelo retorna de forma ainda mais explícita. O Estado avança como máquina de dependência e controle social. Programas assistenciais garantem lealdade política. Educação, produção e economia são subordinadas à narrativa do poder. Setores ligados ao governo são privilegiados. Mérito e produtividade perdem espaço.


O regime atua para capturar instituições centrais. Ministros do Supremo, presidentes da Câmara e do Senado se alinham à agenda do Executivo, garantindo blindagem jurídica e legislativa. Ministérios, estatais e órgãos de fiscalização são ocupados por aliados. Universidades, tribunais e centros culturais passam a ser administrados por operadores fiéis. O fluxo de informação, recursos e prestígio é controlado.


O mito do país do futuro continua funcionando como anestesia. A população é mantida em espera permanente. A responsabilidade individual cede lugar à expectativa de favores do Estado. Leis, orçamento e programas sociais são manipulados para expandir poder e clientelismo. Empresas estratégicas tornam-se dependentes. A economia permanece vulnerável. A cultura segue tutelada. A educação continua ideologizada.


Enquanto verdade objetiva, ordem moral, hierarquia legítima e responsabilidade pessoal diante de Deus e da história permanecerem ausentes, o Brasil seguirá preso à própria narrativa. Um país sustentado por promessas, embalado por ilusões e explorado por homens que lucram com a ignorância permanente da população.



 
 
 

Comentários


bottom of page