AS QUATRO FASES DA REVOLUÇÃO
- Rogério Mazzetto Franco
- há 1 hora
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A história política moderna oferece dois grandes paradigmas de ruptura revolucionária que iluminam com precisão os processos contemporâneos de tomada e reorganização do poder. A Revolução Francesa e a Revolução Comunista não se confundem nos símbolos nem nos contextos históricos, mas compartilham a mesma ossatura mental, o mesmo método de destruição da ordem anterior e a mesma promessa de redenção coletiva que termina invariavelmente na concentração absoluta do poder.
Ambas se iniciaram sob a linguagem da justiça, da correção de abusos e da libertação do povo, avançaram pela desmoralização sistemática das instituições vigentes e culminaram na substituição da legalidade estável por um regime de exceção permanente administrado por uma elite que se declarou intérprete exclusiva da história.
Na França, a queda da monarquia foi precedida pela corrosão simbólica da autoridade, pela ridicularização da tradição e pela dissolução da legitimidade moral do antigo regime, processo que abriu caminho para o Terror, para os expurgos internos e para a restauração autoritária sob novas vestes.
No mundo comunista, a lógica se repetiu com maior rigor ideológico, primeiro pela derrubada da ordem existente, depois pela eliminação violenta dos adversários, em seguida pela devoração dos próprios revolucionários e, por fim, pela consolidação de um Estado total que passou a regular a verdade, a vida social e a consciência individual.
Essas revoluções não triunfaram por força espontânea das massas nem por simples acaso histórico. Elas obedeceram a etapas reconhecíveis, previsíveis e reiteradas, sempre marcadas pela substituição gradual da política pela engenharia do poder.
É sob essa chave histórica que se torna possível compreender o regime atualmente instalado no Brasil, não como exceção exótica, mas como manifestação local de uma lógica revolucionária antiga, adaptada às formas institucionais do presente e disfarçada sob a linguagem da legalidade, da democracia e da defesa do bem comum.
Primeira etapa. Corrosão moral da ordem anterior
O regime do PT chegou ao poder novamente após um longo processo de corrosão moral deliberada, no qual a distinção entre crime e virtude foi dissolvida até perder significado público. Os escândalos do mensalão e do petrolão não destruíram o projeto de poder petista. Eles foram incorporados a uma narrativa segundo a qual a corrupção deixou de ser um fato objetivo para se tornar uma construção política fabricada por inimigos.
A responsabilidade moral foi deslocada dos agentes para os investigadores. A culpa foi transferida das ações para as instituições que as revelaram. A Lava Jato passou a ser tratada como ameaça à democracia. A confiança social foi sistematicamente minada. O passado recente foi reescrito com método e persistência. A sociedade foi conduzida a um estado de confusão no qual todo julgamento moral passou a parecer suspeito e toda denúncia passou a depender da posição ideológica de quem a formulava.
Segunda etapa. Captura institucional
Com a ordem moral fragilizada, o regime avançou para a captura das instituições. O retorno do PT ao centro do poder não ocorreu apenas pelo voto, mas por uma reconfiguração profunda do aparato estatal, especialmente no Judiciário. Decisões passaram a anular condenações consolidadas, a redefinir retroativamente o significado de crimes e a restaurar politicamente lideranças centrais do projeto.
Ao mesmo tempo, tribunais assumiram funções que extrapolam qualquer limite republicano, intervindo diretamente no debate público, regulando discursos, removendo conteúdos, restringindo propagandas e criando um ambiente no qual determinadas posições políticas se tornaram impraticáveis. A legalidade permaneceu em vigor como forma. Seu conteúdo passou a operar de maneira seletiva. O regime manteve a aparência institucional enquanto esvaziava o princípio da igualdade perante a lei.
Terceira etapa. Consolidação e controle do dissenso
Com o poder reorganizado institucionalmente, o regime passou a administrar o espaço público por meio do controle do dissenso. A volta de Lula ao Planalto ocorreu em um cenário no qual a disputa institucional já havia sido vencida antes da disputa política.
A desconfiança popular em relação às urnas eletrônicas surgiu como reação a um sistema que impede auditorias amplas, criminaliza questionamentos e pune preventivamente qualquer tentativa de fiscalização independente.
Questionar passou a ser tratado como ameaça. Fiscalizar passou a ser rotulado como sabotagem. O debate público foi estreitado até caber apenas dentro dos limites definidos pelo próprio poder. O regime não precisou convencer. Bastou enquadrar.
Quarta etapa. Expurgos internos e normalização do medo
Todo regime revolucionário exige fidelidade crescente à medida que se estabiliza. O PT entrou na fase dos expurgos internos ao transformar antigos aliados, jornalistas e intelectuais independentes em elementos incômodos. A autonomia crítica deixou de ser tolerada. A diversidade interna passou a ser vista como risco.
Figuras que não aceitam subordinação integral começaram a ser isoladas, desacreditadas ou pressionadas. O medo foi internalizado como hábito social.
A autocensura tornou-se regra de sobrevivência. A exclusão civil passou a ser mais eficaz do que a repressão aberta. Reputações são destruídas. Carreiras são interrompidas. O silêncio tornou-se condição de permanência no espaço público.
O regime do PT não opera por improviso nem por ingenuidade moral. Ele segue uma lógica histórica conhecida. Primeiro dissolve os critérios morais. Depois captura as instituições. Em seguida controla o dissenso. Por fim administra o medo.
A democracia permanece como palavra. O Estado de Direito sobrevive como retórica. O poder real se exerce por exceções contínuas justificadas por emergências permanentes. Quando o cidadão percebe que já não vive sob regras estáveis, o regime já não precisa mais persuadi-lo. Ele apenas o administra.




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